Cientistas descartam hipótese de que Covid-19 foi criado em laboratório, saiba tudo sobre o vírus

Estudo publicado em uma das mais respeitadas publicações científicas do mundo mostra como a Ciência prova que é falsa a hipótese levantada por médico francês de que coronavírus saiu acidentalmente de laboratório chinês.

Na última semana, os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disseminaram nas redes sociais uma entrevista do virologista francês Luc Montagnier, vencedor em 2008 do Prêmio Nobel de Medicina.

Luc Montagnier divulgou uma hipótese sobre a origem do coronavírus que despertou polêmica. De acordo com ele, o SARS-CoV-2 seria um vírus manipulado, que foi acidentalmente liberado de um laboratório chinês, em Wuhan, quando cientistas buscavam uma vacina contra a Aids.

“O vírus não apareceu em um mercado público de Wuhan. Essa é apenas uma história da Carochinha, mas não é real. O vírus saiu de um laboratório de Wuhan. É o trabalho de um aprendiz de feiticeiro”, declarou.

Segundo ele, uma sequência do HIV foi inserida no genoma do novo coronavírus na tentativa de fazer uma vacina contra o HIV. Ele citou um artigo controverso de um grupo de pesquisadores da Índia. Mais tarde, o artigo foi removido do ar após ser desmascarado.

Depois que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, o professor Luc Montagnier foi acusado de “desvios científicos”. Em 2009, ele apresentou teorias controversas sobre a origem do HIV e sua transmissão. Em 2017, 100 acadêmicos denunciaram suas posições anti-vacinas e pediram ao Colégio de Médicos que a sancionasse.

Colega rebate
Cientistas de diferentes lugares afirmam que as hipóteses de Luc Montagnier são equivocadas e rasas. “Ele não é o único a falar isso, outros pesquisadores já cometeram o mesmo erro. É muito simples. O genoma do novo coronavírus é particularmente rico em duas bases em seu genoma, e o HIV é rico em uma delas. Olhando a sequência genética, pode-se chegar à conclusão de que há similaridades — dentro da hipótese de que o novo coranavírus teria sido ‘manipulado’ em laboratório durante testes de uma vacina contra o HIV”, diz Simon Wain Hobson, virologista molecular do Instituto Pasteur.

“Mas eles não compararam o genoma do novo coronavírus com outros genomas, como o humano, que também possuem partes dessa sequência. Esse é um erro fácil de ser cometido, e que eu percebo desde o início da minha carreira, nos anos 1980. Assim, as conclusões de Montaigner estão erradas”, afirma Hobson.

O que diz a Ciência
Um estudo publicado na revista Nature, uma das mais respeitadas publicações científicas do mundo, descartou a hipótese de o Covid-19 ser um vírus criado em laboratório.

A tese maluca de que o coronavírus é parte de um plano da China para dominar o mundo não é só difundida apenas por Olavo de Carvalho. A questão chegou a ser alimentada pelo próprio Donald Trump.

Acontece que pandemias não são exatamente novidades na história da humanidade. Elas ocorrem desde que começamos a viver em altas densidades populacionais, bem antes de qualquer avanço na biologia, e sempre foram ligadas à nossa proximidade com animais.

Qualquer outra hipótese deve ser considerada com muita cautela e submetida a muito escrutínio. E nos vários novos estudos desde o sequenciamento do SARS-CoV-2 foi justamente isso que aconteceu (veja aqui uma descrição completa do genoma do vírus).

Quaisquer alterações artificiais em pontos específicos do novo coronavírus deixariam marcas em seu RNA bem diferentes das alterações meio que aleatórias causadas pela evolução natural.

No caso do coronavírus, a proteína mais óbvia a ser modificada é a que dá ao vírus o aspecto de coroa (em latim: “corona”, daí o nome). Essa proteína, chamada “Spike”, projeta-se do exterior da cápsula do vírus e reconhece uma outra proteína na superfície das células humanas, a ACE2, envolvida na regulação da pressão sanguínea. Uma vez ligado à ACE2, o vírus adentra a célula humana.

O equívoco da Índia
Um estudo de 2015 feito em colaboração com o Instituto de Virologia de Wuhan, inclusive, já havia mostrado que uma nova versão da proteína Spike que circulava em coronavírus de morcegos, quando transplantada a um coronavírus inofensivo, conseguia fazê-lo invadir células humanas.

No final de janeiro, um grupo da Índia postou no bioRxiv um artigo controverso. O bioRxiv é uma plataforma que permite aos pesquisadores publicarem seus estudos rapidamente, antes de passarem pelo processo de revisão habitual, o que é especialmente importante quando não há tempo a perder, como agora.

Esse estudo, feito às pressas, encontrou quatro trechos “mal explicados” no RNA codificando a proteína Spike do novo coronavírus, que os autores acharam parecidos com trechos do HIV. O estudo sugeria que a presença desses trechos “provavelmente não era fortuita”, e criou um alvoroço imediato na comunidade científica.

No mesmo dia, vários especialistas analisaram o assunto mais profundamente. Descobriram que os trechos de RNA mal explicados na verdade apareciam em vários outros coronavírus. Apenas um desses trechos era realmente mais parecido com um trecho do HIV, mas era tão curto que essa semelhança era estatisticamente insignificante. Era como encontrar a mesma palavra em dois livros diferentes.

A reação da comunidade foi tão rápida que o artigo foi retirado antes mesmo do caso chegar na grande mídia. A partir daí, o bioRxiv começou a incluir uma grande tarja amarela nos artigos sobre o coronavírus, explicitando que ainda não são revisados e devem ser lidos com cuidado.

A origem
Depois disso, outros grupos se empenharam em resolver de vez a questão. Um grupo do Scripps Institute publicou um artigo analisando mais detalhadamente as possibilidades da origem do vírus. Já de cara, era evidente que o vírus não tinha sido projetado em laboratório. O vírus tem muitas características novas, nunca vistas em outros coronavírus, e muitas delas inexplicáveis. Um vírus projetado se pareceria mais com vírus já conhecidos.

Descobriram que a proteína Spike do SARS-CoV-2 realmente possui adaptações que permitem uma maior afinidade às células humanas. Porém, para sua surpresa, se deram conta que os melhores modelos disponíveis não conseguiriam prever o sucesso dessas adaptações, que fazem o vírus se ligar de uma maneira diferente do vírus do SARS original. Portanto, um bioengenheiro tentando projetar um novo coronavírus nunca escolheria essa nova conformação.

Além disso, a estrutura geral do SARS-CoV-2 é muito parecida com a de coronavírus inofensivos encontrados em morcegos e pangolins. Novamente, um bioengenheiro mal intencionado escolheria para seu projeto um vírus sabidamente capaz de infectar seres humanos. Além disso, um vírus descoberto em pangolins mais recentemente, depois do início da epidemia, contém as novas adaptações que aumentam a afinidade a células humanas. Portanto, podemos concluir com confiança que o novo vírus realmente se originou na natureza.

Com informações da imprensa internacional e do portal tilt

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